Em 2 de outubro de 1992, uma intervenção da Polícia Militar de São paulo em uma Casa de Detenção ocasionou a morte de 111 detentos. A chacina ficou conhecida como o Massacre do Carandiru.

O Carandiru era uma Casa de Detenção de São Paulo que foi inaugurada em 1920. Nas suas duas primeiras décadas de funcionamento, era considerada um modelo carcerário a ser seguido por outros países por conta das boas condições e por assegurar educação e trabalho aos presos.

A partir da década em 1940, começaram os problemas por conta da superlotação do presídio. Em 1959, no governo de Jânio Quadros, houve uma tentativa de resolver o problema com a inauguração de um anexo que aumentava a capacidade para 3.250 apenados.

O Carandiru chegou a abrigar mais de 8 mil presos e foi considerado a maior penitenciária da América Latina. Em 2002 fechou as portas após 46 anos de funcionamento. No dia 9 de dezembro do mesmo ano, os pavilhões 6, 8 e 9 foram implodidos.

Em dezembro de 2002, os pavilhões 6, 8 e 9 do Carandiru foram implodidos

Briga em partida de futebol teria iniciado a rebelião

O Carandiru se dividia em pavilhões e cada um possui suas característica. Por exemplo: o pavilhão 8 era considerado o mais temido pois lá estavam os presos reincidentes de crimes e que já conheciam como o presídio funcionava. O Pavilhão 2 era reservado para os recém chegados. Já o Pavilhão 9 era onde ficavam aqueles que eram réus-primários, ou seja, estavam sendo presos pela primeira vez.

A rebelião começou por conta de uma briga de presos do Pavilhão 9 durante um jogo de futebol. A intervenção policial foi liderada pelo coronel Ubiratan Guimarães e era justificada como uma tentativa de apaziguar a rebelião.

Cerca de 300 policiais entraram na Casa de Detenção. A interferência da Polícia foi autorizada por Pedro Franco de Campos, secretário de Segurança Pública da Época. O governador Luiz Antônio Fleury Filho não foi consultado.

Pedro Franco de Campos deixou o cargo um mês depois do massacre e a Secretaria de Segurança foi assumida por Michel Temer.

Coronel Ubiratan Guimarães

As diferentes versões do Massacre

Ainda não há um consenso do que realmente aconteceu após a entrada dos policiais da penitenciária. A versão oficial é que a situação no pavilhão 9 estava incontrolável, o que levou José Ismael Pedrosa, Diretor da Casa de Detenção, a pedir ajuda da polícia.

Após tentativas mal sucedidas de negociação com os detentos, o coronel Ubiratan autorizou que pouco mais de 80 policiais entrassem no presídio.

Esses policiais teriam sido recebidos com tiros e objetos cortantes e, desse modo, o Coronel mandou que o restante dos policiais entrassem.

A versão contada por presos que sobreviveram é, no entanto, diferente. Eles falam que após a conversa com o Diretor decidiram pôr fim a rebelião, muitos entregaram as armas e entraram em suas celas. Ainda assim, os PMs teriam agido com violência e executado dos presos.

Osvaldo Negrini, perito criminal que esteve no local da chacina afirmou que não existiu confronto entre presos e policiais. De acordo com ele, os presos do pavilhão 9 não tiveram possibilidade de defesa.

O perito chegou a essa conclusão pela quantidade de tiros nos corpos dos presos, em especial no tórax e na cabeça, além das marcas na parede da cela que indicam que os policiais chegaram atirando.

Dos 111 mortos, somente 26 estavam fora das celas. Instituições ligadas aos Direitos Humanos disseram que os indícios apontam para um extermínio e uma prova de que os policiais não estavam atirando para se defender dos presos.

Negrini ainda declarou tentativas de prejudicar o trabalho. No dia do massacre, a luz foi cortada na Casa de Detenção, o que dificultou o andamento da operação. Em outras duas ocasiões tudo já havia sido limpo no local.

Conta-se que os presos foram obrigados por policiais a carregarem os corpos e empilharem em outro andar, para alterar a cena do crime.

O julgamento dos envolvidos no Massacre do Carandiru

No dia 8 de março de 1993, 120 policiais militares que participaram da operação foram acusados pelo Ministério Público de tentativa de assassinatos e lesão corporal. Em 1998, 85 policiais se tornaram réus, entre eles o Coronel Ubiratan.

Em 2001, ele foi condenado a 623 anos de prisão por 102 mortes. Mas, em 2006 a defesa recorreu no tribunal de Justiça de São Paulo e ele foi absolvido. Em setembro de 2006, o coronel Ubiratan foi morto com um tiro na região do abdômen. No muro do prédio onde ele  morava foi pichada a frase “aqui se faz, aqui se paga”, uma clara referência ao massacre do Carandiru.

Em 2013, 23 Policiais Militares foram condenados a 156 anos de prisão cada pela morte de 13 presos. No mesmo ano, 25 policiais da Ronda Ostensivas Tobias de Aguiar foram condenados a 624 anos de prisão pela morte de 52 apenados.

Contudo, em 2016 a 4ª Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo anulou as condenações dos policiais com a alegação de que não foi possível analisar de forma individual a conduta de cada condenado. Em 2018, o Supremo tribunal de Justiça invalidou essa decisão e determinou que o julgamento de 2016 seja refeito.

Carandiru na literatura e no cinema

A história do Massacre foi contada no livro Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella. O livro conta 10 anos de atendimento realizado de forma voluntária  na Casa de Detenção.

O livro serviu de inspiração para Carandiru: O filme, de Hector Babenco, que conta a história antes e depois da chacina. A produção é considerada um clássico do cinema nacional e tem no elenco atores como Rodrigo Santoro, Milton Gonçalves, Caio Blat, Lázaro Ramos e Wagner Moura.

Cena de Carandiru: O filme